Sciencia na Biblioteca do Porto

Nonius estivemos lá. Na Biblioteca Municipal do Porto, no dia 11 de junho, com o investigador Henrique Leitão.

O tema da conversa: Livros e leitores de ciência em Portugal, nos séculos XVI e XVII.

Foi extremamente interessante. Alguns factos revelados:

Nessa altura, alguns livros tiveram impressão em vernáculo – a língua própria de um país ou região – neste caso, em português da época. Algo necessário para as pessoas menos eruditas que precisavam de conhecimentos técnicos.

A engenharia do papel estava avançada, com o uso de pop-ups! Sim, pop-ups em papel, como os usados em livros infantis atuais ou em postais.

 

Havia já preocupações pedagógicas, como o registo, nas margens dos livros, de anotações que clarificavam os teoremas e justificavam os passos. Seriam edições para estudantes.

Havia também preocupações de marketing. A capa era o mais importante para a venda de livros: tinha que ser apelativa e traduzir o conteúdo do livro, com imagens inspiradoras.

Como a Tabulae Rudolphinae (1627) de Kepler:

rudolphine tabula

A imagem traduz uma alegoria. Repara que as colunas atrás estão em mau estado, enquanto as da frente estão novas. A antiga e a nova astronomia. As duas da frente dizem respeito a Copérnico e Tycho Brahe.

Na de Tycho está o nónio de Pedro Nunes , o que evidencia o bom nome deste nosso português entre os cientistas europeus dessa época.

lusiadasNo Salão Nobre do Hospital de São José, em Lisboa, os azulejos são tirados de frontispícios de livros de matemática.

Estas imagens aparecem em guias turísticos, flyers de eventos culturais, sempre associadas a hospitais e não ao seu real significado matemático. Tudo porque esta foi a sala onde os futuros médicos faziam o seu exame final!

Nessa altura, na maioria das tipografias portuguesas, era muito difícil fazer tabelas com caracteres matemáticos, como números. As caixas de tipografia tinham poucos elementos numéricos, o que obrigava os tipógrafos a fazer e desfazer matrizes inúmeras vezes. Daí que as tabelas dos livros antigos aparecem muitas vezes com gralhas, dada a morosidade e a necessidade de minúcia que requeriam.

Os cientistas gostavam de explicitar o seu pensamento com volvelles demonstrativas, como esta.

E Galileu no seu Mensageiro das Estrelas usa uma linha de texto com Ós maiúsculos e asteriscos, o que demonstra o seu engenho, de modo a não encarecer a sua obra e manter a ideia de “esmagar o leitor com evidência visual” sobre as suas conclusões científicas.

Também houve “catástrofes” tipográficas: Em 1566, Pedro Nunes decidiu publicar a sua obra na melhor tipografia europeia, em Basileia – nas Oficinas de Heinrich Petr – mas não acompanhou a impressão, por se encontrar em Portugal. A obra chegou às suas mãos cheia de erros tipográficos, e Pedro Nunes ficou furioso, dedicando-se a fazer uma errata enorme. Contudo, o tipógrafo não ligou às alterações necessárias, como era habitual na altura, e hoje apenas se conhece a errata pertencente ao exemplar do próprio autor.

Em 1573, já foi publicado em Portugal, na Tipografia de António de Mariz, a expensas pagas pelo Rei, mas ainda com incorreções nas ilustrações. Em 1592, houve nova impressão da obra já que, na Europa, o interesse por ela e pelo seu autor era grande.

De referir que, em setembro de 1566, Heinrich Petr só colocou na Feira de Frankfurt dois livros, o de Pedro Nunes e o de Copérnico, o que revela a grandeza científica de Nunes, entre os cientistas do seu tempo.

E, se até ao séc. XVI, era a lógica o instrumento para conhecer o mundo, a partir daí, o instrumento do conhecimento passou a ser a matemática.

Ao bom estilo de Pedro Nunes! 🙂

 

 

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