Horizonte

a ideia.

«O conto L’homme qui plantait des arbres, conta a história de um pastor, Elzéard Bouffier, que consegue, sozinho, reflorestar um vale desolado localizado na zona dos Alpes, na Provença. Narra a vida de um homem que, com as suas próprias mãos e uma generosidade sem limites, desconsiderando os obstáculos, faz, do nada, surgir uma floresta inteira e, com isso, voltar a vida e a alegria a esse lugar. O conto é considerado como um manifesto da causa ecologista e como uma parábola da ação positiva do Homem sobre o meio onde vive.

O conto Horizonte conta a história de uma rapariga, Jean, que vive em Giono, vila idealizada pela autora, e que faz poemas por ver o mundo com olhos de poeta. Sozinha e inspirada pelas palavras de Jean Giono, o escritor, tentará levar a cor da poesia às vidas das pessoas que a rodeiam, cada vez mais apagadas e imersas numa guerra longa. Talvez assim a alegria volte e se consiga esperar pela alegria final da descoberta de um tesouro: o dia em que a paz regressa ao seu mundo. A guerra implícita no texto é a Segunda Guerra Mundial.

A vila é apresentada como uma localidade onde cientistas procuram, antes da guerra, a paz necessária para desenvolverem as suas descobertas, talvez prevendo a eventualidade de uma guerra. Mas também aí esta chega, e leva os mais jovens para as batalhas. Os restantes ficam, em sofrimento.

E é este sofrimento que Jean quer minorar. Para isso, e tal como o pastor paciente e crente no seu esforço solitário de reflorestamento de um local inóspito, ela vai de porta em porta lançando sementes de poesia. Consegue que os cientistas, inicialmente céticos, acreditem na sua mensagem e na forma como a transmite, ao ponto de aceitarem o seu pedido e começarem a ir à praia, onde também eles irão alargar o seu horizonte. Lêem poemas e, alguns, criam e recitam poemas. A dor torna-se mais suportável e o tesouro acaba por ser encontrado. A paz regressa. Possivelmente, a poesia ficará também.

No final, Jean sorri, a rapariga e o escritor, seguramente.»


Esta fotografia é de Ana Backhaus, autora de 24h Travel Diary.

a história.

O mar é sempre inspirador. Cada onda que vem traz sal, quando vai leva consigo a dor. Pensava Jean, enquanto escrevia sentada na areia, consciente de cada movimento da sua respiração, acompanhando, de olhos abertos, as ondulações do mar e, de olhos fechados, os movimentos do vento. Escreveu, riscou, tornou a escrever acima do que tinha riscado, várias vezes, e terminou com o título que lhe saltou para os lábios vindo do oceano à sua frente. Horizonte. Sorriu ao dizê-lo. De pé e em voz alta, leu:

deslizar os pés na areia

mover num gesto intencional

cada um de milhares de grãos, intemporal

e a alma sentir em cada veia

procurar do sensível e sensitivo a fonte

escolher nela o poema mais perfeito

para esse momento, em que cada olhar estreito

se alarga para lá do horizonte

bebericar, como convém

cada palavra, verso, estrofe

aquecer a alma do corpo quente

pelo sol, primordial bem

astro paliativo de quem sofre.

gotículas salgadas salpicam a mente

Jean era uma menina como todas as outras, com a particularidade de sentir mais do que as outras. Desde cedo demonstrara inclinação para ver o que mais ninguém via e por conseguir colocar em verso o que outros tinham dificuldade em expressar por palavras soltas. Para ela, a poesia era a sua ciência. Observar a vida, nas suas múltiplas formas, era o seu trabalho de campo. O laboratório onde tratava os dados recolhidos, relacionando-os de forma metódica, ritmada, sintética e precisa, era a sua mente imaginativa e sonhadora. Tão sonhadora como a de um cientista. Os seus poemas estavam bem documentados, alicerçados na perceção realista e arquitetados em sensações idealistas. Gostaria que os seus versos tocassem a alma, como a ciência toca a verdade. Acreditava que a poesia cria pontes, quando por vezes a ciência cria muros. Mas, enquanto criança, os seus poemas foram aplaudidos como criações agradáveis de ouvir e, agora como jovem, eram considerados como uma distração interessante, pouco mais. Jean concluiu que os batimentos de um coração ocupado pela guerra são fracos demais para serem ouvidos pela alma.

Vivia numa pequena vila de sonhadores. Giono era um lugar magnífico e solarengo, abraçado por duas colinas verdes, antes virgem parecendo desprovido de ciência, agora habitado por cientistas, que, nas suas colinas, se punham de pé sobre ombros de gigantes. Tal como Newton, sabiam que apenas conheciam uma gota de água, pois ignoravam tanto como um oceano. O mesmo que viam da sua janela.

Ao longo da guerra o contributo coletivo desta comunidade fora grande: esforço intelectual dedicado a ajudar as forças aliadas contra um ditador que conseguira converter à sua causa pessoas inteligentes mas iludidas pela raiva e pelo medo. Esse esforço mantinha-se, mas estava a cada dia mais enfraquecido pela fome. O mar parecia perder também o seu sal. Jean pressentia-o.

A manhã viu Jean a escrever um poema junto ao mar e a guardá-lo no bolso onde também alguma areia se escondeu. A luz matinal recordou à jovem idealista uma frase que lera na contracapa do livro de um escritor famoso. Era um conto, sobre um pastor que, sozinho, consegue reflorestar um vale isolado na Provença dos Alpes. L’homme qui plantait des arbres, assim se chamava o conto. Jean sussurrou o seu pensamento “o poeta deve ser um professor de esperança”. E sorriu.

O almoço foi igual ao dos dias anteriores, farinha de pau, farinha de guerra. Jean até gostava do seu sabor, mesmo simples, mas a repetição excessiva, contudo necessária, deste prato único fazia com que se perdesse na sucessão dos dias da fome. Enquanto comia, pensava como seria importante quebrar o ritmo cadenciado do respirar dos seus familiares e amigos, cada vez mais lento, cada vez em maior desalento. A falta de emoção era uma consequência da guerra, talvez uma defesa, que, no caso de um sonhador, é na verdade uma doença autoimune. O sistema imunitário fica desorientado, atacando o próprio corpo e os órgãos que deveria proteger.

Já na rua, colocou a mão no bolso, sentindo o papel do poema e a areia. Pensou que esta era tão importante como o poema. Dava-lhe força para o que iria fazer a seguir. A areia representava o elemento primordial da vida. És pó e ao pó voltarás. Não há que ter vergonha nem medo, portanto.

O sol queimava nessa tarde de primavera. O seu coração também.

Avançou pelas ruas da sua vila e, batendo às portas, lia o poema que tirava do bolso, caindo sempre alguma areia, talvez pó mágico que trouxesse de novo a alegria. Pedi-a que, se pudessem, fossem à praia. Lá estaria um tesouro. Fez isto durante toda a tarde. E no dia seguinte. No dia a seguir, escolheu outras portas e outro poema. E, nos dias seguintes, novas e já conhecidas portas, com mais e mais poemas. E sempre o mesmo pedido, se pudessem, fossem à praia.

Os cientistas daquela vila gostavam de a ouvir. Parecia-lhes que, dia após dia, ela tinha mais graça e dizia coisas com sentido. Que naquele momento faziam sentido.

A pouco e pouco, foram acedendo ao seu pedido. E, aos poucos, sentiram a vontade de levar um poema, alguns o seu poema, para lê-lo em frente ao mar, para o mar. Liam alto, alguns conseguiam declamar, de maneira a que os soldados lá longe os ouvissem. E voltassem.

Com o tempo, deixaram de ir sozinhos. Queriam ler e ouvir ler juntos. Queriam partilhar. A alegria e o sofrimento. Não se sentiam já tão sozinhos. A alegria molhava a pele como a água do mar e a dor tornava-se mais líquida. Um cálice que era preciso provar. Enquanto recitavam poesia.

Esperavam encontrar o tesouro de Jean.

Num dos primeiros dias de maio, sentiram a alegria de encontrar um tesouro: o dia da vitória tinha chegado.

Jean sorriu.

Cristina Cidnay | abril 2018

***

A poesia é um ato de paz.

O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha.

Pablo Neruda

Este conto é dedicado à artista que faz da fotografia poesia. Love you, friend! 🙂

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s