Podias dar um mimo… e o meu sonho

“Professora, o meu desenho está bem?”

“Sim, querida, está muito expressivo. Gostei muito da tua ideia de pintar a lua a iluminar o interior da sala de aula.”

“Podia haver aulas de noite. Era divertido!”

“Ah! Isso é que era divertido! Então, estão a faltar as estrelas.”

“Sim, e tu serás uma estrela.”

“Tão bom este miminho!”

– Bé, você está de novo duvidando?

– Não sei, Vanessa, acho que não vou conseguir. Não estou aqui a fazer nada. Não consigo implementar o negócio, nem aqui nem em Portugal. Vou-me embora para lá. Vou voltar a dar aulas. O meu filho está cheio de saudades do irmão e dos amigos. Esta cidade é uma vila, bonita, com habitantes simpáticos, mas sem sol, sem mar, sem vida nas ruas, apenas um sorriso e um bom dia. Sinto-me sozinha e frustrada!

– Bé, amiga do peito, você pode se sentir frustrada, está no seu direito, mas não está sozinha. Eu, a Marília e a Isabel estamos com você! Você vai ficar aqui com seu marido e seu filho e vai dar a volta, vamos ajudar você.

– Obrigada, Vanessa, pelo mimo. É tão importante este miminho!

> Olá, amiga! Então, como está Luxemburgo city? Estás com bom ar!

> Olá, Cris! Bom ar, apesar da falta de sol, e muito trabalho.

> E já há novidades? Não falamos há uns meses…

> Bem, se te conseguir contar tudo…

Vim para Luxemburgo, que é a capital do país com o mesmo nome. É uma das cidades mais ricas da Europa, que acolhe várias instituições da União Europeia. O pequeno país Luxemburgo, desenhado por colinas e florestas, é um Grão Ducado circundado pela Bélgica a oeste, a França a sul e a Alemanha a leste. Foi neste importante centro financeiro e administrativo que o meu marido Luís encontrou um novo trabalho, bem remunerado, adequado às suas qualificações de gestor, após ser despedido – estilo morte súbita – em Portugal. Eu só pude fazer-lhe companhia cá sete meses após a sua chegada, depois de terminado o ano letivo.

Gostei da cidade, onde podes conhecer pessoas de todo o mundo, novas ideias, diferentes conceitos, gastronomia diversa. É aquela cidade-vila que te conhece. Na rua, as pessoas cumprimentam-te. Mas convém passear cedo nas ruas, o comércio e os serviços fecham cedo. Alguns, como os consultórios médicos só abrem mesmo se tu marcares consulta. A exceção, na minha zona, é a de uma médica portuguesa, de clínica geral, que faz atendimento de manhã, por ordem de chegada. Está sempre com gente!

De resto, é tudo muito calmo, com pouca agitação cultural ou artística. Apesar de ser multicultural, como a escola onde inscrevi o meu filho mais novo, a Escola Europeia. Esta escola sabe promover uma das nossas bandeiras nas escolas portuguesas: a integração dos alunos vindos de fora. Nem todas as escolas do Luxemburgo são assim, tão integradoras e confluentes. A forma como foi acolhido, a oferta curricular flexível e de nível europeu, e a promoção do gosto de ensinar e de aprender, pouco obediente a burocracias ou a cumprimento ineficiente de serviço por parte dos professores desta escola, motivaram a sua adaptação a uma circunstância que o meu filho inicialmente rejeitara. 

Já o resto da cidade não segue este exemplo no que toca a favorecer realmente a integração e o desenvolvimento de potencial pessoal e profissional. E tem problemas quando se trata de papel…

> Se é um centro financeiro, têm problemas com papel?

> Não com O papel, mas com OS papéis! São muito burocratas. Não foram na onda do simplex português, de certeza.

Parece que seguem o lema: Para quê desenrascar, quando te podemos enrascar? Comecei a aperceber-me disso há algum tempo, quando o meu filho precisou do registo criminal exigido pela escola de condução. Só não nos disseram qual das versões queriam: versão 1, versão 2 ou versão 3. Poderíamos ter poupado o pagamento de duas versões se tivéssemos jeito para falsificar números. Era a única coisa que tínhamos que alterar, para ter o documento certo: o número da versão!

E não cruzam dados. À entrada de vários serviços públicos, deveria ser colocada uma placa, em forma de aviso: Sistema informático fora de serviço! Prova dada na repartição da porta ao lado não faz prova aqui. Muna-se da documentação necessária e facilite os nossos serviços. Merci. Danke. 

Uma amiga minha brasileira conseguiu abrir uma empresa de catering para eventos infantis. Mas só quando se apercebeu deste aviso invisível e se cansou de ser tratada como uma bola de ping-pong. Já tinha até contratado os serviços de um economista, quando resolveu marcar o ponto decisivo: cancelar os seus serviços, tirar da internet o papel necessário para a constituição da empresa, preenchê-lo, enviá-lo e, surpresa!, empresa criada. Félicitatiounen!

Senti as mesmas dificuldades de concretização do meu objetivo quando decidi desenvolver a marca que comecei a criar em Portugal. De pulseiras, passei a brincos que oferecia como um miminho de amiga. Cada vez fui tendo mais amigos interessados em mimos que eu fazia para oferecerem a namorados, amigos, família, vizinhos. E já com a perspetiva de vir para cá, fui a primeira cliente de um grupo de Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes do Porto, conseguindo o branding da minha marca, fazendo o meu primeiro voo para o Luxemburgo já com cartões, etiquetas, saquinhos e embalagens com o logótipo É Mimo É .

Pois é, a marca traduz a forma como me relaciono com os outros e como as minhas peças de bijuteria, as mochilas e os bonecos personalizáveis e os meus doces artísticos e originais encantam pelo carinho com que são realizados.

O problema não foi criar a marca. O problema foi outro.

“Professora, achas que posso pintar as estrelas de azul turquesa?”

“As estrelas costumam ser representadas pela cor dourado. Porquê azul turquesa?”

“Assim, o céu azul espelhava um pouco o oceano. Quando me sinto triste, penso no oceano.”

“O oceano faz-te feliz?”

“Sim, muito. Faz-me pensar que, quando for grande, vou querer fazer coisas importantes. Tenho a certeza que, se treinar muito, vou aprender a nadar muito bem. Um nadador francês até já conseguiu atravessar o Oceano Atlântico a nado!”

“Espantoso! E não tens medo do que te possa acontecer no mar alto?”

“Não. Tenho é medo de nunca tentar. Dizem-me que fazer isso é muito difícil. Tenho medo de perder a coragem.”

“Pinta as estrelas de azul turquesa, se te ajuda a acreditar no teu sonho. Faz assim: mistura azul-ciano com pouca quantidade de verde…”

> Percebi que tentar criar e registar um negócio no Luxemburgo, que se adequasse ao meu gosto e competência, significava ter formação técnica, e não superior!, de três anos teóricos e outros três anos práticos. Ou seja, uma longa preparação de seis anos, e sem equivalência ao ensino superior português. Compreendi que a minha vontade era registar o negócio em Portugal. Para além da eventualidade de regressar, a marca é portuguesa e pretendo que se expanda em Portugal. Gostava mesmo de ter um espaço onde pudesse expor as minhas peças de bijuteria, para divulgação e venda, onde também criasse doces e gelados meus artesanais e pudesse continuar a dinamizar workshops, para crianças e pais, relativos à criação de bonecos e mochilas.

Entre o Natal e a Passagem de Ano, aproveitando o empurrão de uma ponta de sol português e ainda com cheiro a canela e limão nas mãos e na alma, dirigi-me a um balcão do IEFP. Em determinado momento da conversa com o funcionário que me atendeu, já estava confusa: seria eu uma personagem de um filme do cinema surrealista? Seria falta de racionalidade ou mera ironia?

– Vamos ver se percebo: a senhora gostava de abrir um negócio de peças com prata e precisa de formação em joalharia.

– Sim, a prata é um metal precioso. E, segundo o que me disseram, preciso de comprovar formação para poder vender as minhas peças.

– Compreendo. Temos aqui o curso Técnico de Ourivesaria. Tem uma série de apoios: bolsa de formação, subsídio de transporte, subsídio de alimentação, seguro de acidentes pessoais, estágio em empresa no setor. Muito bom, e teria a certificação profissional.

– Sim, excelente!

– Mas… estou a ver… tem que ter 9º ano ou superior.

– Tenho curso superior.

– É demais: não deveria ter concluído o ensino secundário. E há outro problema…

– Qual?

– Não é um adulto desempregado.

– Não, estou em licença sem vencimento de longa duração.

– Deveria estar desempregada. Não imagina a formação e as ofertas de emprego que teria à sua disposição, se estivesse desempregada e quisesse voltar para Portugal.

– Assim tantas? Pensei que houvesse falta de emprego.

– Há, mas para pessoas como a senhora, com qualificações a mais e que querem desenvolver um projeto profissional. O trabalho temporário é o mais apetecido pelas empresas.

– Bem, mas eu quero formar a minha própria empresa e trabalhar em algo onde sou competente e que domino. E estou a viver no Luxemburgo!

– Devia deixar-se desses romantismos. Há inúmeros trabalhos, alguns bem pagos e com possibilidade de promoção, que teria ao seu dispor se tivesse outra perspetiva. Vejo aqui algumas ofertas de emprego interessantes, por exemplo, técnico de apoio aos utilizadores das tecnologias da informação e comunicação, governanta de andares. Poderia tirar o curso de técnico de juventude, técnico de organização de eventos, técnico de apoio familiar e de apoio à comunidade. Cursos que me parecem encaixar bem com o seu perfil.

– Mas não se trata do meu perfil nem estou à procura de emprego. Sou professora e quero formar a minha empresa!

– Tenha calma. Ainda não terminei a minha pesquisa. Vejamos… ah, talvez goste deste: um partido político procura colaborador. Possibilidade de promoção. O que lhe parece?

– Como? Nem estou a acreditar! Disse partido político?

– Sim, é o que está aqui. Parece-me, de todas as opções, a mais interessante. Pode ser que, mesmo com as suas qualificações, consiga esta vaga.

– Mas, para isso, não teria que estar filiada no partido?

– Não necessariamente. Mas ficava-lhe bem. E ajudava à progressão na carreira.

– Só poderia colaborar se acreditasse e apoiasse a ideologia e as ideias desse partido…

– Podemos sempre adaptarmo-nos às ideologias, temos que olhar pela nossa vida. E ideias, há muitas.

– Mas um político deve ser alguém que, para além de formação elevada, deve saber influenciar positivamente a forma como a sociedade é governada. Tem que ter personalidade e fortes convicções.

– Hoje em dia, todos temos que ter uma grande capacidade de adaptação. O nosso lema é “Candidato que não se adapta pode entrar em extinção”. Tudo vai do poder de adaptação.

 – Concordo que os tempos são de mudança, é preciso ser resiliente, mas também é preciso saber manter a personalidade e conseguir pensar ao mesmo tempo no meu bem e no bem comum. É preciso estabelecer um compromisso, consigo próprio e com a sociedade!

– Resta saber se isso dará para sobreviver neste mundo.

– Já vi que, para essa oferta de emprego, não teria as competências requeridas.

– É pena! Olhe que poderia ter um emprego duradouro.

Surreal!, pensei eu. Saí do IEFP com a convicção de que estava certa. De que tinha que estar certa. Iria adaptar-me às regras que me impunham para conseguir atingir o meu sonho, mas sem perder a minha personalidade e as minhas convicções.

As dificuldades iniciais em registar a minha marca em Portugal só foram superadas em janeiro desse ano, e com a ajuda de uma amiga contabilista, que ficou como minha representante fiscal em Portugal. Posso produzir bonecos, bijuteria, doces e sopas. Autênticas iguarias gastronómicas que contrastam com a comida apresentada em eventos dos luxemburgueses, que faz lembrar os pratos descartáveis em que comem. E vou produzir peças com materiais preciosos, de forma única e artística, quando conseguir a licença de artista de joalharia. Consegui mesmo frequentar um curso de joalharia. E consegui mesmo criar a minha empresa e deixar a minha marca, com muito mimo.

“Professora, terminei o meu desenho. Gostas?”

“Está muito bom. Seguiste as minhas indicações quanto à forma de pintar, mas os elementos do teu desenho têm cores diferentes das cores habituais…”

“Vou ter nota pior por isso?”

“Não, minha querida. Só quer dizer que foste original.”

“Então, está bem?”

“Está muito bem! Valorizarei sempre a originalidade… e a personalidade.”


Este conto foi escrito em julho de 2017, quando a Elisabete Lopes, criadora da marca É Mimo É e do bombom Be God, estava ainda no Luxemburgo. Hoje, está prestes a abrir a sua primeira loja no Porto e pronta a distribuir muitos mimos, de encher o olho e… o apetite.

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