Como transformar uma maldita numa heroína

Já usei mais vezes a letra X em Matemática do que em Português… Mas duvido que uma abelha aprenda a escrever a letra X, apesar de saber matemática… já que ajuda as outras abelhas a construir colmeias com favos de mel que têm uma área grande para um perímetro pequeno, ou seja, onde cabe muito mel e se gasta pouca cera… pois, com a forma hexagonal… assim como o meu brinco bué da estranho… por isso, gosto tanto de matemática!… E gostei sempre? Pensamentos no chuveiro.

Algumas vezes, nem sempre. Sempre, muitas vezes. Sem confusões: era boa aluna, até me terem tornado bem melhor. Ainda me lembro… era um professor que nos punha em sentido, especialmente na forma como picava a nossa autoestima, seus burros.  Mas, também nos colocava em cima de um cavalo-alado, dava-lhe uma forte palmada que nos levava a um mundo simbólico fantástico, com números, fórmulas, pensamentos e conclusões que nos faziam acreditar sermos princípes e princesas, aventureiros e descobridores de verdades intemporais. Foi aí que me tornei feliz e que comecei a minha viagem, que retrato em vídeo, em pequenos filmes com que desejo inspirar mais aventureiros destemidos. Também falo alto, às vezes para uma plateia de gente que até consigo contagiar pela alegria e fé nos elementos desse mundo simbólico fantástico, para muitos deles desconhecido e pouco fascinante. Se soubessem que não precisam de poções mágicas para criar as magias do nosso mundo, como computadores, telemóveis, redes wireless, robôs, e muito mais, mas do raciocínio lógico e abstrato da matemática, suportado por axiomas, teoremas, teorias, padrões, induções, deduções, intuições, não me achariam de outro planeta.

A minha diferença reside em viver neste mundo e tentar com todas as minhas forças compreendê-lo. Muitos vivem neste planeta, que lhes é tão desconhecido como o universo, e por isso temem até a sua própria sombra. O que não me acontece. Tenho uma sombra elegante e agradável. O que também cria confusão em algumas cabeças. Inteligência não devia estar associada a beleza. Mais um engano por desconhecimento: não há maior beleza do que uma demonstração matemática! Como se fosse um poema de rima perfeita ou uma melodia harmoniosa e encantadora.

Hoje acordei a pensar num ganda problema. Li algures que pertenço à geração Y, que a minha mãe é da geração X e que produzo vídeos no Youtube para a geração Z. Bem, não li isto tudo, eu é que deduzi, força do hábito. O problema é que quem gosta dos meus vídeos são os cínicos da geração X, alguns nativos digitais da geração Y e poucos simbólicos da geração Z. O que me está a parecer um paradoxo, tão desconcertante como o Paradoxo do Hotel de Hilbert.

Mas como eu tenho uma imaginação infinita, como diz a minha X-mami, vou entrar no meu próprio hotel – leia-se no meu canal de YouTube –  e começar a analisar os meus hóspedes, estilo análise de mercado no meu gabinete, ou seja, no meu quarto com a minha sócia, a Internet.

Isto do XYZ faz lembrar o sistema de coordenadas tridimensionais inventado pelo grande Descartes. Tal como ele, “cogito, ergo sum”, penso, logo existo. E penso que é bem mais fácil usar as coordenadas precisas de um ponto para o localizar no espaço do que resolver o meu problema: chegar à geração Z, as nossas crianças e adolescentes, que respiram tecnologia como nós respiramos ar, que comunicam através de imagens e símbolos, expressam emoções com emojis (afinal pictogramas!), que são multitarefa e ecológicos.

O paradoxo está na relação que detêm com os hieróglifos atuais. Percebem-nos melhor do que ninguém. Não deveriam estar assim mais aptos para compreender a escrita “enigmática” da matemática? E a compreender-me na minha tarefa de influenciadora digital?

O que me atirou para dentro do meu quarto escuro. Fechei a porta aos pessimismos da Geração X, na pessoa dos meus pais, deixei-a encostada não fosse o caso do meu irmão da Generation Me me querer dar uma dica “à medida”, e pesquisei o que pude sobre os mais novos. Preparei-me para um vídeo centennial, desviado de normas e regras, mas com uma inteligência prática para resolver um problema do mundo real: tornar a matemática uma heroína! Bem, essa é difícil… Resolvi experimentar primeiro uma heroína tornar-se matemática.

Esperei pelos likes. Obtive alguns, mas da Geração X, em especial. Ou seja, não tinha atingido o meu objetivo. Mesmo assim, não desisti. Fui idealizando, filmando e editando as imagens que fiz no quarto, na sala, na piscina, sozinha e acompanhada, na esperança de conseguir o meu primeiro intento: tornar a matemática uma heroína. Lembrei-me dos emojis, numa noite de estrelas. E do equilíbrio de que estava à procura. Aproveitei para promover a minha faceta de youtuber. Sem esquecer o que mais quero promover: o gosto por desafios matemáticos.

Terei sido bem sucedida. Os comentários de pessoas X, Y e Z foram positivos e divertidos, como “Isto com tantos Pis parece uma mensagem em código morse! Hihihi” Exatamente, a matemática é uma linguagem divertida e universal. Estava a chegar mais longe.

Lembrei-me de usar uma outra língua universal num vídeo motivacional. Saí da minha zona de conforto – do conforto do lar, doce lar! – e fui percorrer a minha cidade, berço da minha nação.

Nesta cidade descobri, desde cedo, a matemática que nos rodeia, em elementos geométricos, em fachadas, em recantos. Seria justo mostrá-la ao mundo, como eu a via, com exuberantes padrões lógicos.

As gerações X e Y parecem ter gostado. Mais uma vez, comentários positivos e encorajadores, de vários pontos do globo. E uma ideia que um sonho me revelou: a cota z do sistema de Descartes cresce perpendicularmente ao plano definido pelas abcissas x e pelas ordenadas y, e só tem sentido na definição do espaço tridimensional quando conjugada e dependente da respetiva abcissa e ordenada. Talvez seja isso: é preciso que X e Y suportem Z na construção de conhecimento matemático, tal como na construção de uma figura tridimensional no sistema de eixos cartesianos.

A matemática é uma ciência, assente em conhecimentos e descobertas antigas e recentes, alfa e ómega do desenvolvimento tecnológico. A geração Z é moldada por tecnologia, cresce seguindo as linhas desenhadas pelos seus dedos e os símbolos em que toca no Touch Screen à velocidade da vida. Esta ideia motiva-me a continuar em busca do meu graal, que não será santo, mas envolto em perfeição. Continuarei a usar a arma mais poderosa do ser humano, a inteligência. E a contar com a minha heroína de sempre, a matemática. Mesmo que as gerações continuem a acrescentar dimensões, para além do tempo…

Este texto é dedicado à maior Mathgurl de sempre: Inês Guimarães.

Cristina Cidnay

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